Gritei por ti várias vezes. Quase sempre em silêncio. Precisava de muito pouco, uma palavra apenas. Talvez duas, não mais do que três. Precisava saber que te importavas. Precisava que alguém se importasse. Qualquer alguém. Mas tu eras especial, demasiado até. No meio da solidão eras a minha companhia. Era capaz de passar o dia inteiro a ter conversas imaginárias contigo, a ensaiar dizer-te o quanto te odeio por não me amares, o quanto te odeio por não ser digno do teu afeto, da tua atenção. Imaginava cenários onde tinha coragem de dizer que tinha a certeza de que só me estavas a usar para curares as tuas feridas do passado. Todo o meu amor e dedicação faziam bem ao teu ego, deixavam-te feliz, mas ao mínimo pedido de reciprocidade erguias uma muralha. Não tenho nada para dar. Não estou preparada. Esforcei-me tanto para compreender os teus medos, mas não sou perfeito. Nos meus piores dias as tuas palavras ressoavam na minha mente como Não estou preparada para ti, Não tenho para te dar, Não quero saber de ti, És patético, Achas mesmo que uma mulher como eu iria gostar de ti? O monstro que lá vive era assim alimentado e eu passava os dias no sofá, sem vontade de viver.
Passas o dia inteiro comigo. Já te tinha dito? Acordo todas as madrugadas a pensar em ti, semi-nua, os beijos que nunca terminam, os teus seios que chupo e acaricio enquanto a minha mão desce pelo teu corpo e começa a fazer movimentos circulares. Cada vez mais rápido. Ainda mais rápido. Os teus gemidos dizem-me que estou a fazer algo bem. Quem estivesse a ver da janela do meu quarto, aberta nessa noite quente, estaria apenas a ver um louco, privado do toque humano há meses, a buscar num orgasmo auto-provocado o ponto mais alto do dia. E todas as madrugadas são iguais, fornecendo uma distração a meio de tanta loucura e tristeza.
Ontem os vizinhos tinham convidados para o jantar. Saíram por volta da meia-noite. Risos, alegria, algazarra. Com tanta inveja fiquei. Deito um olhar ao messenger para perceber se viste a minha mensagem, quem sabe terás respondido. Nos meus sonhos mais desvairados, talvez tenhas deixado pela primeira vez uma mensagem carinhosa. Tenho saudades tuas, Gosto muito de ti, Cuida-te, Beijinhos, Sinto a tua falta. Engano-me. A falta de interesse, a frieza com que me tratas mantém-se constante. Não sei o que fazer para merecer mais, para receber da tua parte as palavras que dedicas aos teus amigos, aos teus boys, aos teus apaixonados. Tocar-me parece ser para ti um pecado capital ou um ato repugnante. Se calhar o problema é tratar-te tão bem, preocupar-me tanto contigo, ver-te como mulher, companheira, como alguém igual a mim, e não ver-te primeiro como um pedaço de carne com orifícios a ser penetrados. Se calhar gostarias mais de mim assim, bruto, mal educado, cheio de pinta e falinhas mansas. O bad boy dos teus sonhos, vaidoso, cheiroso e que se sabe vestir. O anti-Eu.
Perco-me na amargura. Esqueço-me de que não te posso obrigar a gostar de mim. Estou condenado a ser a melhor versão possível de mim mesmo e ver-me fracassar, uma e outra vez. Aceitas tudo o que te dou, sem teres nada para dar. Aproveitas-te de mim como vingança pelo que os outros te fizeram sofrer. Secas-me. Bebes todo o meu amor e deixas-me a morrer de sede. Choro. Odeio-te um pouco mais.
Escondo a verdadeira natureza da nossa relação com os meus amigos. Tenho vergonha de dizer que nada somos. Vergonha de partilhar o meu fracasso. Vergonha de saberem que por trás de todas as minhas declarações está um ser fraco que não consegue se libertar de um colete de forças. Sinto-me impotente. Neste isolamento forçado és a única que me pode salvar e perceber isso deixa-me de rastos. Como pude deixar isso acontecer? Como posso permitir que uma pessoa que não gosta de mim tenha a chave para me manter vivo? Só preciso de uma palavra. Duas talvez, não mais do que três. Mas és incapaz de as dizer e muito menos de as escrever. Não consegues perceber que a minha fonte de amor só pode continuar a existir se for regada por ti. De vez em quando. Só um pouco. Não peço muito. Não consegues entender que quando bebes tudo e não me dás nada, estás a condenar-me à morte. A morte que se aproxima cada vez mais. Esperta, ela aproveita-se das noites escuras para chegar mais perto. Ela cresce com cada dia de solidão, com a tua indiferença, com a tua indisponibilidade emocional. Tanto és a razão do seu crescimento, como tens a única chave para me manter vivo.
Deveria ter percebido desde o início o quão egoísta eras. Os sinais eram claros. Só te interessa a satisfação das tuas necessidades e nada mais. Sempre que partilhava de forma honesta os meus sentimentos, as minhas inseguranças, reagias como se nada fosse. Quiseste os meus beijos achando que não me farias acreditar que poderia almejar a algo mais.
Mais um dia que se acaba. Rodeado de silêncio, espreito a varanda. 15, 20 metros? A tentação é muita. Seria uma queda rápida.