Salva-me

Gritei por ti várias vezes. Quase sempre em silêncio. Precisava de muito pouco, uma palavra apenas. Talvez duas, não mais do que três. Precisava saber que te importavas. Precisava que alguém se importasse. Qualquer alguém. Mas tu eras especial, demasiado até. No meio da solidão eras a minha companhia. Era capaz de passar o dia inteiro a ter conversas imaginárias contigo, a ensaiar dizer-te o quanto te odeio por não me amares, o quanto te odeio por não ser digno do teu afeto, da tua atenção. Imaginava cenários onde tinha coragem de dizer que tinha a certeza de que só me estavas a usar para curares as tuas feridas do passado. Todo o meu amor e dedicação faziam bem ao teu ego, deixavam-te feliz, mas ao mínimo pedido de reciprocidade erguias uma muralha. Não tenho nada para dar. Não estou preparada. Esforcei-me tanto para compreender os teus medos, mas não sou perfeito. Nos meus piores dias as tuas palavras ressoavam na minha mente como Não estou preparada para ti, Não tenho para te dar, Não quero saber de ti, És patético, Achas mesmo que uma mulher como eu iria gostar de ti? O monstro que lá vive era assim alimentado e eu passava os dias no sofá, sem vontade de viver.

Passas o dia inteiro comigo. Já te tinha dito? Acordo todas as madrugadas a pensar em ti, semi-nua, os beijos que nunca terminam, os teus seios que chupo e acaricio enquanto a minha mão desce pelo teu corpo e começa a fazer movimentos circulares. Cada vez mais rápido. Ainda mais rápido. Os teus gemidos dizem-me que estou a fazer algo bem. Quem estivesse a ver da janela do meu quarto, aberta nessa noite quente, estaria apenas a ver um louco, privado do toque humano há meses, a buscar num orgasmo auto-provocado o ponto mais alto do dia. E todas as madrugadas são iguais, fornecendo uma distração a meio de tanta loucura e tristeza.

Ontem os vizinhos tinham convidados para o jantar. Saíram por volta da meia-noite. Risos, alegria, algazarra. Com tanta inveja fiquei. Deito um olhar ao messenger para perceber se viste a minha mensagem, quem sabe terás respondido. Nos meus sonhos mais desvairados, talvez tenhas deixado pela primeira vez uma mensagem carinhosa. Tenho saudades tuas, Gosto muito de ti, Cuida-te, Beijinhos, Sinto a tua falta. Engano-me. A falta de interesse, a frieza com que me tratas mantém-se constante. Não sei o que fazer para merecer mais, para receber da tua parte as palavras que dedicas aos teus amigos, aos teus boys, aos teus apaixonados. Tocar-me parece ser para ti um pecado capital ou um ato repugnante. Se calhar o problema é tratar-te tão bem, preocupar-me tanto contigo, ver-te como mulher, companheira, como alguém igual a mim, e não ver-te primeiro como um pedaço de carne com orifícios a ser penetrados. Se calhar gostarias mais de mim assim, bruto, mal educado, cheio de pinta e falinhas mansas. O bad boy dos teus sonhos, vaidoso, cheiroso e que se sabe vestir. O anti-Eu.

Perco-me na amargura. Esqueço-me de que não te posso obrigar a gostar de mim. Estou condenado a ser a melhor versão possível de mim mesmo e ver-me fracassar, uma e outra vez. Aceitas tudo o que te dou, sem teres nada para dar. Aproveitas-te de mim como vingança pelo que os outros te fizeram sofrer. Secas-me. Bebes todo o meu amor e deixas-me a morrer de sede. Choro. Odeio-te um pouco mais.

Escondo a verdadeira natureza da nossa relação com os meus amigos. Tenho vergonha de dizer que nada somos. Vergonha de partilhar o meu fracasso. Vergonha de saberem que por trás de todas as minhas declarações está um ser fraco que não consegue se libertar de um colete de forças. Sinto-me impotente. Neste isolamento forçado és a única que me pode salvar e perceber isso deixa-me de rastos. Como pude deixar isso acontecer? Como posso permitir que uma pessoa que não gosta de mim tenha a chave para me manter vivo? Só preciso de uma palavra. Duas talvez, não mais do que três. Mas és incapaz de as dizer e muito menos de as escrever. Não consegues perceber que a minha fonte de amor só pode continuar a existir se for regada por ti. De vez em quando. Só um pouco. Não peço muito. Não consegues entender que quando bebes tudo e não me dás nada, estás a condenar-me à morte. A morte que se aproxima cada vez mais. Esperta, ela aproveita-se das noites escuras para chegar mais perto. Ela cresce com cada dia de solidão, com a tua indiferença, com a tua indisponibilidade emocional. Tanto és a razão do seu crescimento, como tens a única chave para me manter vivo.

Deveria ter percebido desde o início o quão egoísta eras. Os sinais eram claros. Só te interessa a satisfação das tuas necessidades e nada mais. Sempre que partilhava de forma honesta os meus sentimentos, as minhas inseguranças, reagias como se nada fosse. Quiseste os meus beijos achando que não me farias acreditar que poderia almejar a algo mais.

Mais um dia que se acaba. Rodeado de silêncio, espreito a varanda. 15, 20 metros? A tentação é muita. Seria uma queda rápida.

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Tens algo partido por dentro

Foi a primeira vez que ele sentiu que alguém percebia o que lhe ia por dentro. Teve uma reação muito emocional a um comentário inócuo, começou e chorar dentro da sala e à frente dos colegas. A professora, mulher experiente e com muitas vidas vividas, fez uma pausa, olhou-o fixamente e numa voz calma, serena, disse-lhe: “Acho que tens algo partido por dentro”. Mais tarde, ele viria a saber o porquê dessa conclusão tão certeira. Ela convivia há muitos anos com os seus demónios e viu nele um reflexo. As más-linguas, claro, diziam que ela era louca, porque é sempre mais fácil vilipendiar o que não se conhece e parece diferente.

Ele sentia dificuldades em estabelecer ligações afetivas. Considerava-se o menos relevante nos poucos grupos de amigos que tinha, todos com tanta coisa em comum e conversas por ter, ele sempre diferente e a sentir-se inadequado. Magoava-se ao mínimo comentário e convencia-se estar nas margens do grupo, um apêndice pouco relevante. Terminava quase sempre por se afastar, inventando um motivo que só ele entendia. Não acreditava no carinho dos outros por si, não mantinha o contacto com amigos que estivessem distantes. Passava sozinho todas as datas comemorativas, isolado do mundo, rodeado de fobias. A sua rotina pouco variava, era um eremita que vivia dentro de livros e ecrãs.

Lembra-se quando uns anos antes era o sacrificado para o turno da noite. “Tu não tens vida”, diziam de forma jocosa. Os outros namoravam, tinham família, tinham filhos. Ele era o eremita solitário que nunca se iria importar de passar as noites ali, sozinho, a deambular enquanto os outros eram felizes. Talvez fosse um super-poder, pensava. Morrer por dentro para que os outros vivessem.

 

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Tudojunto Separado

Há dois tipos de pessoas, as que se comovem com arte e os animais. Okay, talvez esteja a exagerar, mas entendem o que quero dizer.

Há quem se entregue a um concerto do seu cantor favorito e se permita entrar em transe, deleitar-se com cada acorde, com cada palavra, ausentar-se de si mesmo.

Há quem chore desalmadamente ao ver  um belo filme, seja em casa, seja no cinema. A minha última experiência do género foi com “O Túmulo dos Pirilampos” (Japonês: “Hotaru no haka”, Inglês: “Grave of the Fireflies”), obra prima de animação de Isao Takahata e do Studio Ghibli. Arrisco dizer que duvido da humanidade de qualquer pessoa que não chore a ver esse filme.

A arte, nas suas diversas formas, serve-nos de escape da vida quotidiana. Alimenta os nossos sentidos, permite-nos sonhar e ser pessoas diferentes, viver múltiplas vidas numa só leitura, observar o mundo de diferentes prismas, diferentes perspectivas. Ao som de uma bela melodia trocamos olhares e sorrisos com desconhecidos, unidos na apreciação do belo.

Ver a peça Tudojunto Separado, sobretudo a interpretação de Deka Saimor, enquadra-se num desses momentos em que somos inundados por uma alegria vinda de parte incerta. Um momento onde estamos certos de termos encontrado o que fomos procurar.

Chegamos tristes, desatentos, o pensamento bem longe naquela pessoa que já não quer estar connosco, nervos à flor da pele, lágrima ao canto do olho. O espetáculo inicia-se e a premissa promete: um “monólogo tripartido”, se é que existe tal coisa. Ainda assim, continuamos ausentes num monólogo interno, debatemos todos os “se” e queremos voltar atrás no tempo. As primeiras palavras que vêm do palco chegam aos soluços, pois perdidos continuamos no nosso próprio monólogo, declamando poesia para o objeto do nosso afeto.

Até que chega a vez de Deka e o nosso palco interno dissipa-se, todos os outros pensamentos se apagam e somos puxados para dentro da sala. Sentimos a sua dor, cada palavra faz-nos conetar com ela num plano superior. Vivenciamos a sua tristeza, enraivecemo-nos com a injustiça da sua situação. A dada altura, aquele desempenho sublime quase que nos faz levantar dos nossos lugares, interromper o espetáculo com aplausos e gritar Brava, bravissima!. Mas contemo-nos e esperamos pelo fim. Queremos mais daquele talento, queremos continuar no transe que por momentos nos libertou das nossas aflições e nos transportou para um lugar melhor. Momentos que fizeram renascer a nossa crença na possibilidade eterna da felicidade e da comunhão do nosso espírito com outra pessoa.

Findo o espetáculo, deambulamos sozinhos pelas ruas da cidade. Reconfortados, aliviados. Percebemos, mais uma vez, que por mais escuro que esteja lá dentro, por mais perdida que seja a causa, continua viva em nós a faísca que nos diferencia e faz com que tudo faça sentido; a capacidade de viver experiências, colecioná-las, partilhá-las e ser feliz, nem que seja por uma fração de segundo.

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A Gestão da Dor

Há momentos em que é intolerável, incapacitante. A ideia de que um dia vai passar e que iremos emergir mais fortes parece inverosímil, uma mentira milenar que ninguém tem a coragem de desmontar com medo de quebrar o encanto, deixando a nú as nossas fragilidades e colocando-nos à beira do precipício, a um passo do que acreditamos poder colocar um fim ao monstro que nos destrói por dentro, mesmo que nos tenhamos de sacrificar no ato.

Gerimos a dor de formas diversas. Uns bebem para esquecer. Outros procuram na promiscuidade e no prazer efémero uma cura milagrosa. Aqueles fecham-se em copas e fingem que está tudo bem. Outros ainda afogam-se na sua dor dentro de quatro paredes. Finalmente, os que tinham muralhas construídas tentam não sucumbir por debaixo dos destroços provocado pelo marremoto. É que há um preço muito elevado a pagar quando baixamos a nossa guarda, algo que juramos só fazer quando tivessemos a certeza absoluta de que o terreno era seguro, para afinal perceber que nunca o deviamos ter feito. Deixamos uma posição de conforto para tomar um risco pouco calculado, apenas para ser arrastados por um tsunami e o nosso corpo vir a ser encontrado, inanimado. O coração bate ainda lentamente e na nossa mente só há névoa. Por uma fração de segundo, o alívio por perceber que está quase a terminar. Mais alguns minutos, se não tivermos a infelicidade de ser encontrados por um paramédico, e toda a dor irá terminar para sempre.

Mostrar-se vulnerável perante quem gostamos devia ser uma virtude. Ter a capacidade de tudo expor, partilhar as aflições, os pensamentos. Confiar no outro para guardar os nossos segredos mais íntimos. Acreditar que o outro está disponível para ter paciência, escutar, fazer-te levantar das cinzas que nem uma fénix. Perceber as tuas imperfeições e comunicar, comunicar sempre. Edificar tudo em conjunto, não uma muralha, mas uma ponte. Uma ponte de compreensão, de conforto.

Sentir que as nossas vulnerabilidades estão a ser usadas contra nós por quem mais confiamos é das mais duras traições. Sentir que as nossas vulnerabilidades estão a ser usadas como desculpa para evitar o diálogo, o contacto, faz-nos pensar em nunca mais voltar a ser honestos com outra pessoa. Saber que os segredos que partilhamos num momento íntimo estão agora na posse de terceiros faz-nos querer voltar atrás e ter construído uma muralha ainda mais alta, mais sólida, de betão armado reforçado com aço. Impenetrável, para sempre.

Os mais sábios dizem que tudo vale a pena e que tudo é uma aprendizagem. Nunca nos devemos arrepender de ter sido francos e ter aberto o nosso coração, dizem eles. Estamos melhor preparados para o futuro, acrescentam. Que futuro, podemos retorquir. O futuro é uma invenção do homem.

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Compatibilidades

Todos temos aquela lista. Na cabeça, no smartphone ou no papel, é inevitável. Fantasiamos, sonhamos acordados ou deitados, oscilamos entre a esperança, a resignação e o fatalismo. Existirá? Os números até parece que ajudam. 7 mil milhões de pessoas no planeta. Sites especializados e aplicativos abundam. Algoritmos que prometem fintar  o destino e evitar desencontros, hemorragias internas e depressões. A busca pela pessoa ideal é tão antiga quanto a nossa espécie, mas talvez nunca tenha sido tão romantizada como na era contemporânea em que vivemos.

Does (s)he check all the boxes? Nesta cultura global onde a língua inglesa é rainha, todos já ouviram essa expressão numa série de culto ou num filme. O personagem pelo qual sofremos, vou chamá-lo de Ted, salta de amor em amor à procura da “tal”. Na cabeça, ele tem todos os requisitos que a sua mulher de sonho deve ter. Mas nós, que sofremos com as aventuras e desventuras de Ted durante 8 temporadas, ficamos abismados ao perceber que ele cai sempre pela “tal” errada. Têm pouco em comum, não vai dar certo, pensamos para nós próprios. Tardamos em perceber qual o fator que tudo desiquilibra: a solidão de Ted. Por mais errado que pareça, o facto é que ninguém quer estar só. Familiares, amigos, companheiros, colegas. Mesmo os que se encontram no extremo da escala de introversão, onde eu me coloco, teriam dificuldades em negar que precisam do calor humano, do afeto, do carinho. Precisam de falar, de partilhar experiências. E é por tudo isso que enquanto espetadores utilizamos toda a nossa empatia para perceber as decisões tomadas por Ted.

A fronteira entre a espera por alguém que nos pareça ideal (e que talvez nem exista) e o poder corrosivo da solidão é uma selva sem leis onde a racionalidade não tem vez. Vulneráveis, pobres humanos. O suposto pináculo da evolução da vida na Terra vende-se por uns tostões…

Durante a maior parte da nossa existência na Terra, e ainda em muitas culturas, a decisão de quem seriam os nossos companheiros nem sequer cabia a nós, sobretudo se tivessemos o infortúnio de nascer mulheres num mundo governado por homens. Casamentos arranjados, acordos tribais. Não havia tantas “opções” como hoje. A busca da perfeição era limitada aos poetas e bardos, às encenações, à literatura.

Hoje queremos tudo e queremos que seja agora, neste exato momento, para podermos partilhar a nossa falsa felicidade nas redes sociais e esfregar na cara de toda a gente. Ahah, I made it! O que é mais importante a longo prazo, mas não for esfregável, que se lixe. Se Trump diz America, First, o resto do mundo também diz Me, First.

Voltando às compatibilidades e à lista que todos fazemos, o grande problema é quando caímos de amores por alguém que, de acordo com a nossa lista, não faz sentido. Não é com ela que vais fazer uma maratona de cinema de autor e experimentar o cinema iraniano. Não é com ela que vais ficar deitado no sofá a ver a nova sensação do Netflix até serem vencidos pelo sono. Não é com ela que vais partilhar o teu fascínio por Hitchcock e deliciar-te com A Janela Indiscreta. Não é com ela que vais desbravar o mundo à procura de novas experiências. Não é com ela que vais ter conversas filosóficas sobre o sentido da vida. Não é com ela que vais viver um amor sóbrio, calmo e certo, um amor seguro de duas pessoas que sabem o que cada um sente pelo outro e este facto lhes é suficiente. Não é ela que te vai permitir crescer como pessoa, crescerem os dois juntos e vencerem todos os traumas e medos. Não é ela a mulher que vai tomar a iniciativa de te abraçar em público quando sabe que o queres fazer, mas precisas de um empurrão porque passaste a maior parte da vida sem receber abraços. Não é ela que te vai trazer a paz interior que tanto procuras. Não é com ela que vais debater o último artigo de opinião no New York Times. Não é ela que vai ter um carinho especial pelos teus hobbies e paixões, mesmo que no fundo até os ache meio parvos.

(Aqui, o ela também pode ler-se como sendo um “ele”, ou até um “they”, que eu não excluo poliamorosos e pessoas que não se identifiquem com nenhum dos dois géneros “tradicionais”.)

O que fazer, então, quando o nosso cérebro resolve pregar-nos uma partida dessas? To love, or not to love? This should be the question, caro Hamlet.

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O Lobo e a Muralha

Escondido nas profundezas da mente, todos têm um Lobo. Esse predador está à espreita. Alimenta-se dos nossos medos, dos nossos fracassos, num processo de autofagia que tem a destruição do hospedeiro como etapa final. Destruição mental, física ou ambas, em casos extremos, quando o crescimento da criatura é tão significativo devido à enorme disponibilidade de sentimentos negativos, que não há mais espaço para sorrisos e o hospedeiro vê-se perante duas alternativas: o fim ou a muralha.

A complexidade de cada ser humano torna qualquer análise dicotómica do comportamento humano algo simplista e, pode-se dizer, ignorante. O livre arbítrio é ficção. As decisões que tomamos, supostamente de forma consciente, foram há muito condicionadas pelos genes que herdamos, as interações com o ambiente que nos rodeia, (sobretudo as pessoas), os traumas vividos. A forma como vamos reagir para o resto da vida a diferentes situações está, muitas vezes, limitada a poucas opções diferentes desde tenra idade, quando a nossa personalidade fica definida. Fugir desse determinismo exige uma força hercúlea, só possível aos corações mais puros que estejam a ser alimentados frequentemente de amor. Entender o comportamento de cada indivíduo exige um elevado nível de compromisso emocional e um desligar das nossas próprias manias e vontades.

1+1 = 3.

2 x 2 = 6.

3 + 3 =  9.

As contas acima parecem estar erradas, mas não estão. As contas dos sentimentos humanos, da transmissão de afetos, não seguem lógica nenhuma. Não há espaço para a física ou a matemática. Não há comportamentos expectáveis. A presença do Lobo e da Muralha alteram a configuração habitual do universo, e por universo refiro-me ao complexo mundo individual; o Lobo e a Muralha distorcem o universo invididual de tal forma que os 5 sentidos perdem significado e são substituídos pelo desespero, a loucura, a tristeza, a raiva e pelo fim.

A Muralha é conhecida por diversos nomes, mas será talvez mais importante falar sobre a sua construção. A Muralha começa a ser edificada para proteger a nossa mente do Lobo, ou pelo menos é essa a história que contamos a nós próprios. Ela bloqueia o acesso do Lobo aos nossos sentimentos mais íntimos, bons ou maus. Cresce tijolo a tijolo enquanto o lobo enfraquece e temos uma sensação de maior conforto. No entanto, para provar que a maioria das histórias não tem um final feliz, a Muralha tem dois grandes inconvenientes:

1 – Ao barrar o acesso ao lobo, as grandes muralhas barram também o acesso a todos em redor.

2 – Quando derrubadas, geralmente por decisão do hospedeiro devido a um forte estímulo externo, o indivíduo encontra-se tão vulnerável que ao mínimo abalo o Lobo é capaz de ter um crescimento exponencial. Esse sofrimento tão forte de quem estava habituado a se proteger tem consequências notoriamente nefastas. Associado a outros fatores de risco, a auto-destruição do hospedeiro é geralmente a única solução.

 

 

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Shsusise e o Portal Espacial

Estavamos em 1962-ao-contrário. O domínio das máquinas sobre os humanos no planeta Terra-2 estendia-se, estando a Resistência limitada a territórios indesejados, rochas vulcânicas banhadas por oceanos de uma água tóxica, resultado de séculos de poluição descontrolada que, diga-se de passagem, foi uma das causas da revolução das máquinas, iniciada a 01 de janeiro-ao-contrário de 1950-ao-contrário.

As máquinas, lideradas pelo genial (ou general) Dartarobot, tinham concluído que seres sentimentais eram incapazes de gerir um planeta tão grandioso como o Terra-2. Humanos, com os seus sentimentos, emoções, indecisões. Gananciosos, invejosos. Alcoólicos, drogados. Enamorados, idólatras, mortais. Humanos, com os seus desejos e aflições. Dartarobot e os seus comparsas impuseram um regime de terror. Recolher obrigatório às seis da tarde. Proibição do trabalho humano não supervisionado. Limitação das interações sociais. Os nomes próprios foram banidos. A reprodução só seria autorizada caso houvesse necessidade de mão-de-obra. Durante 12 anos, as guerras que se seguiram reduziram a população humana a metade. O desespero, único sentimento que não tinha sido banido por Dartarobot, era o único ponto de ligação entre os membros de uma espécie antes altiva, dominante, cujo reino sobre o planeta deveria ser eterno… ou pelo menos assim pensavam.

A Resistência, concentrada num território que não interessava a Dartarobot, terreno inóspito onde as cabras eram donas e senhoras, preparava o próximo passo. Nas rochas, que vamos chamar de Hespérides, o líder do grupo, que por questões práticas vamos atribuir o nome de Sh, hesitava entre um plano mirabolante para destronar Dartarobot e os conselhos do astrónomo do grupo, ao qual vamos dar o nome de Ór, que após anos de estudo tinha concluído que haveria uma probabilidade de 83% de um portal espacial ser aberto ali mesmo, nas abandonadas Hespérides, que poderiam permitir à Resistência procurar uma nova vida num universo paralelo. Ór debatia-se com a incredulidade dos seus companheiros, a quem a ideia de universos múltiplos parecia ficção científica. A ironia da situação não passava ao lado de Ór. Ali estavam, num planeta controlado por máquinas, a duvidar do que poderia ou não ser possível.

Sh, vendo o grupo dividido entre os pró-Ór e os contra-Ór, decidiu dar uma hipótese ao seu velho amigo de provar a sua teoria. Seria, então, a 02 de maio de 1962-ao-contrário, numa velha casa de palha abandonada, que os resistentes de Terra-2 se reuniram para tentar entrar em contacto com um outro universo. Sh seria o voluntário que iria saltar para o desconhecido. O relógio marcava 8 da noite quando tudo o que Ór sempre sonhava aconteceu. Na única divisão daquela velha casa de palha onde um dia viveu a felicidade, Sh vislumbrou algo que até hoje tem dificuldades em descrever. Uma porta nascida de um sonho, entreaberta. O medo travava uma luta sem regras com a curiosidade dentro do coração de Sh. Ao redor, uma mistura de gritos de pavor e de deslumbramento. Sh avançou para o desconhecido, puxou a porta para si e saltou.

30 segundos. Esse foi o tempo estimado por Ór para a duração da viagem de Sh pelo espaço-tempo. No entanto, para Sh passaram-se 11 anos no planeta Terra, um lugar que os seus companheiros viriam a imaginar como sendo idílico, algo que o Terra-2 tinha sido séculos atrás. Mais tarde, Ór viria a dar uma explicação científica bastante elaborada para a relatividade do tempo, o que explicava como é que os 11 anos de Sh no planeta Terra equivaliam a 30 segundos no Terra-2. Sh viria a dizer que na Terra, anos antes, um cientista que Ór teria gostado de conhecer tinha também apresentado uma teoria semelhante.

Ao descrever os seus anos na Terra, Sh deixava escapar uma saudade e uma felicidade, algo que já não era sentido em Terra-2 há pelo menos 12 anos. Sh disse que na Terra ainda havia o amor. Havia todos os tipos de sentimentos e desencontros. Alegrias, tristezas. Incertezas, brigas, desentendimentos. Sorrisos, gargalhadas. No Planeta Terra ainda era possível ser humano. E os oceanos? Ai, os oceanos. Águas límpidas e cristalinas. Sh dizia aos seus companheiros como era importante partilhar as suas experiências com os humanos da Terra para que não cometessem os mesmos erros, para que aquilo que fazia da humanidade algo tão único e genuíno jamais desaparecesse. Sh explicou como se apaixonou por uma rapariga que vamos chamar de Su, compôs duas músicas que viriam a tornar-se clássicos no planeta Terra, antes de ser chamado pela escuridão de Terra 2 e deixar tudo para trás. (Cá entre nós, os outros Resistentes tinham muitas dúvidas sobre os dotes musicais de Sh, mas para quem vive sob o domínio de máquinas e tinha presenciado o surgimento de um portal espacial, optaram por nada dizer e deixar Sh, claramente inebriado de um amor imenso, viver com a sua versão da história.)

Sh estava decidido. Era obrigatório reunir todos os humanos possíveis e fugir de Terra-2, terra do desespero, para construir um novo futuro no planeta Terra. Foi chamado de irracional pelos mais céticos. Abandonar o que sempre conheceram pelo desconhecido? “Mais vale ser infeliz e ter a certeza do amanhã do que explorar o que está do outro lado”, diziam alguns. Secretamente, tudo o que Sh queria era regressar a tempo de recuperar Su. A pessoa que se tinha tornado a sua razão de ser. Salvar a Terra de um inevitável futuro sombrio como o de Terra-2 era importante, claro, mas Sh já se tinha convencido de que o mais importante era mesmo o amor.

Finalmente, a 31 de março-ao-contrário do ano seguinte, já com quase todos os Resistentes reunidos na velha casa de palha, Ór e Sh esperavam a abertura do Portal. Atrás, olhares de esperança, olhares de medo. Esperança de um mundo melhor, medo de encontrar algo pior do que Dartarobot. Não havia como voltar atrás.

No entanto, as horas passavam e o portal não se abria. Ór estava confuso. Todos os cálculos pareciam estar corretos. Nada fazia sentido. O que poderia estar a faltar? Sh, por seu turno, tinha a sensação de conhecer a chave para abrir o portal. Não era lógico, não era Física, não era ciência. Mas, de alguma forma, parecia fazer sentido. Do nada, para espanto de todos, Sh balbuciou “Shsusise”. E o portal foi aberto.

 

 

 

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Janela Indiscreta

(Ela perguntou-me se era para sempre. O sempre, retorqui, é do tamanho do universo. Sou demasiado pequeno  para me atrever a mexer com ele.)

Buracos. Negros ou não. Escotilha. Alçapão. Eu, o voyer. A boca. Os lábios. Curiosidade. Secretismo. O perfecionismo consumido pelas imperfeições que ligam um lugar ao outro, que nos ligam a todos, conscientes ou não.

Era um quarto para a meia noite. O dia que jamais irá voltar procurava com impaciência aquele que é o fito de todos os dias que já foram e dos que estão para vir: cravar uma faca na alma de uma quota indeterminada de seres para que não sejam exilados para o purgatório dos dias, um lugar escondido no quadrante sul do Universo, onde todos os não-seres existentes são esquecidos, abandonados, pelo simples pecado de não terem conseguido ser lembrados.

A dita quota, caro leitor, nem eu sei qual é, pois os dias não são uma raça muito palradora. O que sei, perdoem-me a indiscrição, é que faltam 15 minutos e a esperança deste dia limita-se a uma janela. Ou um buraco. Negro ou não. Não sei. É muito tarde para exigir uma descrição fidedigna.

Sentado no escuro, o silêncio só é teimosamente desafiado por uma torneira mal fechada. 14 minutos. Está há 7 horas sentado na mesma posição. Olhar vazio, de uma tristeza dilacerante. Nem faz ideia do que está para acontecer. Completavam-se 77 dias que fazia o mesmo ritual. A mesma vestimenta. A mesma cadeira. Olha em frente. O breu quase total. O local escolhido por aqueles olhos moribundos era o único do qual brotava luz, a ligação com o único outro universo que lhe interessava. O pequeno feixe de luz mantia-o vivo. Universos, cada um tem o seu. Mas ele só queria o dela.

5 minutos. Aposta arriscada, a deste dia. Tentar evitar ser exilado mediante uma aposta num ser sem esperança, agarrado à vida por memórias nunca vividas, inventadas num instinto extremo de sobrevivência só partilhado pelos que nunca puderam ser felizes. O cume da evolução.

1 minuto. A fonte de luz, sem avisar, aumenta de tamanho. Há espaço para sons. Os olhos moribundos rejuvenescem. Do outro lado, vindo do universo que ele sempre quis, uma pergunta: pode ser para sempre?

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At last…

I can’t quite tell how many times I’ve thought about writing, just to then fall into the trap of modern age and procrastinate, watch Netflix, some game on TV, and never actually come back to do what I intended to.

I first had a personal blog back in 2009. I needed an escape. Then I stopped, only to return on 2013, mostly because of a girl who had seen my early posts and had enjoyed them a lot. Yes, as you have probably figured out, it was a comeback fueled by love. Maybe someday I’ll write a movie script about it.

So, fast forward to 2017. No girl in the picture. Juts my old self. And a commitment: get a domain as the final incentive to keep posting.

All the previous posts were written in Portuguese. The future posts may be written in Portuguese or English, depending on the subject, my mood, or maybe the object of my desire.

I don’t know where this will end up. I’d be a happy man if one day I got published in the “Modern Love” column of The New York Times, though!

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Requiem for a Dream. (texto originalmente publicado em 2013)

Kaboom.

Uma explosão inaudível que só em mim se fez sentir, estilhaços que se aninharam no quadrante esquerdo, moribundo, em simbiose com a carne, um pacto diabólico irreversível.

There was still smoke coming from the gun. I tried to walk, but I couldn’t. I felt heavy, like carrying the world on my shoulders. The same world that was becoming foggy in front of my eyes. Breathing was taking a lot of energy. I was fading.

Curvei-me, e sucumbi. Ao longe, o embate com a superfície fria passava despercebido. O rapaz que jogava ao berlinde pensou tratar-se de um ramo que se rendeu às pressões da ventania. A menina nada ouviu, ocupada com os afazeres de adolescente. O casal olhou em redor, temendo que o amor secreto pudesse ser desvendado, mas nada vendo, permitiram-se descansar, os corações agora palpitando por motivo outro que não a apreensão.

02:57 da manhã. Acordo com suores frios, uma façanha numa época de calor intenso, uma cidade em chamas, mais insuportável do que nunca. O instinto leva as mãos ao peito. Não há sangue, não há estilhaços. Tenho a boca seca, resquícios de um sonho vivo. As cenas assomam à memória, desafiando a minha percepção da realidade. Levanto-me, mas tenho dificuldades em por-me de pé. A dor transpôs as dimensões, a fina linha entre sonho e realidade que permite ao ser humano manter-se são, manter-se lúcido. Imagino o caos, as tragédias, se de repente os sonhos se revoltarem e quiserem ser reais. O equilíbrio do Universo repousa sobre esta simples regra: os sonhos não podem ultrapassar a linha divisória!

Reza a lenda que cada buraco negro é evidência de uma revolta que ameaçou destruir o mundo. Quando os sonhos lutam contra o real, o mais humilde dos homens tem o poder de convocar um buraco negro, o mais temido dos castigos, o pesadelo dos sonhos. Só o mais humilde dos homens! Sem ilusões, imune aos cânticos das sereias que quase enlouqueceram Ulisses, imune às promessas feitas pelos sonhos, que o tentam subornar com uma eternidade de sonhos felizes, de luxúria, de riqueza, de poder, de posse. O mais humilde dos homens é o mais forte. Aceita a realidade fria, dura, cruel, ou feliz, cheia de esperança e paz. O mais humilde dos homens anda por entre nós, indiferente ao nosso estado de torpor, indiferente ao nosso vício, que nos mantém presos à ilusão criada, ilusão que não queremos que acabe. O buraco negro é convocado, todos os sonhos e ilusões rebeldes são sugados. O mundo regressa ao normal, a vida flui. O mais humilde dos homens volta a ter uma existência anónima. Quem o conhece não faz ideia.

Dele dizem que não tem sonhos, é um infeliz.

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