Tens algo partido por dentro

Foi a primeira vez que ele sentiu que alguém percebia o que lhe ia por dentro. Teve uma reação muito emocional a um comentário inócuo, começou e chorar dentro da sala e à frente dos colegas. A professora, mulher experiente e com muitas vidas vividas, fez uma pausa, olhou-o fixamente e numa voz calma, serena, disse-lhe: “Acho que tens algo partido por dentro”. Mais tarde, ele viria a saber o porquê dessa conclusão tão certeira. Ela convivia há muitos anos com os seus demónios e viu nele um reflexo. As más-linguas, claro, diziam que ela era louca, porque é sempre mais fácil vilipendiar o que não se conhece e parece diferente.

Ele sentia dificuldades em estabelecer ligações afetivas. Considerava-se o menos relevante nos poucos grupos de amigos que tinha, todos com tanta coisa em comum e conversas por ter, ele sempre diferente e a sentir-se inadequado. Magoava-se ao mínimo comentário e convencia-se estar nas margens do grupo, um apêndice pouco relevante. Terminava quase sempre por se afastar, inventando um motivo que só ele entendia. Não acreditava no carinho dos outros por si, não mantinha o contacto com amigos que estivessem distantes. Passava sozinho todas as datas comemorativas, isolado do mundo, rodeado de fobias. A sua rotina pouco variava, era um eremita que vivia dentro de livros e ecrãs.

Lembra-se quando uns anos antes era o sacrificado para o turno da noite. “Tu não tens vida”, diziam de forma jocosa. Os outros namoravam, tinham família, tinham filhos. Ele era o eremita solitário que nunca se iria importar de passar as noites ali, sozinho, a deambular enquanto os outros eram felizes. Talvez fosse um super-poder, pensava. Morrer por dentro para que os outros vivessem.

 

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