Tudojunto Separado

Há dois tipos de pessoas, as que se comovem com arte e os animais. Okay, talvez esteja a exagerar, mas entendem o que quero dizer.

Há quem se entregue a um concerto do seu cantor favorito e se permita entrar em transe, deleitar-se com cada acorde, com cada palavra, ausentar-se de si mesmo.

Há quem chore desalmadamente ao ver  um belo filme, seja em casa, seja no cinema. A minha última experiência do género foi com “O Túmulo dos Pirilampos” (Japonês: “Hotaru no haka”, Inglês: “Grave of the Fireflies”), obra prima de animação de Isao Takahata e do Studio Ghibli. Arrisco dizer que duvido da humanidade de qualquer pessoa que não chore a ver esse filme.

A arte, nas suas diversas formas, serve-nos de escape da vida quotidiana. Alimenta os nossos sentidos, permite-nos sonhar e ser pessoas diferentes, viver múltiplas vidas numa só leitura, observar o mundo de diferentes prismas, diferentes perspectivas. Ao som de uma bela melodia trocamos olhares e sorrisos com desconhecidos, unidos na apreciação do belo.

Ver a peça Tudojunto Separado, sobretudo a interpretação de Deka Saimor, enquadra-se num desses momentos em que somos inundados por uma alegria vinda de parte incerta. Um momento onde estamos certos de termos encontrado o que fomos procurar.

Chegamos tristes, desatentos, o pensamento bem longe naquela pessoa que já não quer estar connosco, nervos à flor da pele, lágrima ao canto do olho. O espetáculo inicia-se e a premissa promete: um “monólogo tripartido”, se é que existe tal coisa. Ainda assim, continuamos ausentes num monólogo interno, debatemos todos os “se” e queremos voltar atrás no tempo. As primeiras palavras que vêm do palco chegam aos soluços, pois perdidos continuamos no nosso próprio monólogo, declamando poesia para o objeto do nosso afeto.

Até que chega a vez de Deka e o nosso palco interno dissipa-se, todos os outros pensamentos se apagam e somos puxados para dentro da sala. Sentimos a sua dor, cada palavra faz-nos conetar com ela num plano superior. Vivenciamos a sua tristeza, enraivecemo-nos com a injustiça da sua situação. A dada altura, aquele desempenho sublime quase que nos faz levantar dos nossos lugares, interromper o espetáculo com aplausos e gritar Brava, bravissima!. Mas contemo-nos e esperamos pelo fim. Queremos mais daquele talento, queremos continuar no transe que por momentos nos libertou das nossas aflições e nos transportou para um lugar melhor. Momentos que fizeram renascer a nossa crença na possibilidade eterna da felicidade e da comunhão do nosso espírito com outra pessoa.

Findo o espetáculo, deambulamos sozinhos pelas ruas da cidade. Reconfortados, aliviados. Percebemos, mais uma vez, que por mais escuro que esteja lá dentro, por mais perdida que seja a causa, continua viva em nós a faísca que nos diferencia e faz com que tudo faça sentido; a capacidade de viver experiências, colecioná-las, partilhá-las e ser feliz, nem que seja por uma fração de segundo.

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe um comentário