Há momentos em que é intolerável, incapacitante. A ideia de que um dia vai passar e que iremos emergir mais fortes parece inverosímil, uma mentira milenar que ninguém tem a coragem de desmontar com medo de quebrar o encanto, deixando a nú as nossas fragilidades e colocando-nos à beira do precipício, a um passo do que acreditamos poder colocar um fim ao monstro que nos destrói por dentro, mesmo que nos tenhamos de sacrificar no ato.
Gerimos a dor de formas diversas. Uns bebem para esquecer. Outros procuram na promiscuidade e no prazer efémero uma cura milagrosa. Aqueles fecham-se em copas e fingem que está tudo bem. Outros ainda afogam-se na sua dor dentro de quatro paredes. Finalmente, os que tinham muralhas construídas tentam não sucumbir por debaixo dos destroços provocado pelo marremoto. É que há um preço muito elevado a pagar quando baixamos a nossa guarda, algo que juramos só fazer quando tivessemos a certeza absoluta de que o terreno era seguro, para afinal perceber que nunca o deviamos ter feito. Deixamos uma posição de conforto para tomar um risco pouco calculado, apenas para ser arrastados por um tsunami e o nosso corpo vir a ser encontrado, inanimado. O coração bate ainda lentamente e na nossa mente só há névoa. Por uma fração de segundo, o alívio por perceber que está quase a terminar. Mais alguns minutos, se não tivermos a infelicidade de ser encontrados por um paramédico, e toda a dor irá terminar para sempre.
Mostrar-se vulnerável perante quem gostamos devia ser uma virtude. Ter a capacidade de tudo expor, partilhar as aflições, os pensamentos. Confiar no outro para guardar os nossos segredos mais íntimos. Acreditar que o outro está disponível para ter paciência, escutar, fazer-te levantar das cinzas que nem uma fénix. Perceber as tuas imperfeições e comunicar, comunicar sempre. Edificar tudo em conjunto, não uma muralha, mas uma ponte. Uma ponte de compreensão, de conforto.
Sentir que as nossas vulnerabilidades estão a ser usadas contra nós por quem mais confiamos é das mais duras traições. Sentir que as nossas vulnerabilidades estão a ser usadas como desculpa para evitar o diálogo, o contacto, faz-nos pensar em nunca mais voltar a ser honestos com outra pessoa. Saber que os segredos que partilhamos num momento íntimo estão agora na posse de terceiros faz-nos querer voltar atrás e ter construído uma muralha ainda mais alta, mais sólida, de betão armado reforçado com aço. Impenetrável, para sempre.
Os mais sábios dizem que tudo vale a pena e que tudo é uma aprendizagem. Nunca nos devemos arrepender de ter sido francos e ter aberto o nosso coração, dizem eles. Estamos melhor preparados para o futuro, acrescentam. Que futuro, podemos retorquir. O futuro é uma invenção do homem.