Compatibilidades

Todos temos aquela lista. Na cabeça, no smartphone ou no papel, é inevitável. Fantasiamos, sonhamos acordados ou deitados, oscilamos entre a esperança, a resignação e o fatalismo. Existirá? Os números até parece que ajudam. 7 mil milhões de pessoas no planeta. Sites especializados e aplicativos abundam. Algoritmos que prometem fintar  o destino e evitar desencontros, hemorragias internas e depressões. A busca pela pessoa ideal é tão antiga quanto a nossa espécie, mas talvez nunca tenha sido tão romantizada como na era contemporânea em que vivemos.

Does (s)he check all the boxes? Nesta cultura global onde a língua inglesa é rainha, todos já ouviram essa expressão numa série de culto ou num filme. O personagem pelo qual sofremos, vou chamá-lo de Ted, salta de amor em amor à procura da “tal”. Na cabeça, ele tem todos os requisitos que a sua mulher de sonho deve ter. Mas nós, que sofremos com as aventuras e desventuras de Ted durante 8 temporadas, ficamos abismados ao perceber que ele cai sempre pela “tal” errada. Têm pouco em comum, não vai dar certo, pensamos para nós próprios. Tardamos em perceber qual o fator que tudo desiquilibra: a solidão de Ted. Por mais errado que pareça, o facto é que ninguém quer estar só. Familiares, amigos, companheiros, colegas. Mesmo os que se encontram no extremo da escala de introversão, onde eu me coloco, teriam dificuldades em negar que precisam do calor humano, do afeto, do carinho. Precisam de falar, de partilhar experiências. E é por tudo isso que enquanto espetadores utilizamos toda a nossa empatia para perceber as decisões tomadas por Ted.

A fronteira entre a espera por alguém que nos pareça ideal (e que talvez nem exista) e o poder corrosivo da solidão é uma selva sem leis onde a racionalidade não tem vez. Vulneráveis, pobres humanos. O suposto pináculo da evolução da vida na Terra vende-se por uns tostões…

Durante a maior parte da nossa existência na Terra, e ainda em muitas culturas, a decisão de quem seriam os nossos companheiros nem sequer cabia a nós, sobretudo se tivessemos o infortúnio de nascer mulheres num mundo governado por homens. Casamentos arranjados, acordos tribais. Não havia tantas “opções” como hoje. A busca da perfeição era limitada aos poetas e bardos, às encenações, à literatura.

Hoje queremos tudo e queremos que seja agora, neste exato momento, para podermos partilhar a nossa falsa felicidade nas redes sociais e esfregar na cara de toda a gente. Ahah, I made it! O que é mais importante a longo prazo, mas não for esfregável, que se lixe. Se Trump diz America, First, o resto do mundo também diz Me, First.

Voltando às compatibilidades e à lista que todos fazemos, o grande problema é quando caímos de amores por alguém que, de acordo com a nossa lista, não faz sentido. Não é com ela que vais fazer uma maratona de cinema de autor e experimentar o cinema iraniano. Não é com ela que vais ficar deitado no sofá a ver a nova sensação do Netflix até serem vencidos pelo sono. Não é com ela que vais partilhar o teu fascínio por Hitchcock e deliciar-te com A Janela Indiscreta. Não é com ela que vais desbravar o mundo à procura de novas experiências. Não é com ela que vais ter conversas filosóficas sobre o sentido da vida. Não é com ela que vais viver um amor sóbrio, calmo e certo, um amor seguro de duas pessoas que sabem o que cada um sente pelo outro e este facto lhes é suficiente. Não é ela que te vai permitir crescer como pessoa, crescerem os dois juntos e vencerem todos os traumas e medos. Não é ela a mulher que vai tomar a iniciativa de te abraçar em público quando sabe que o queres fazer, mas precisas de um empurrão porque passaste a maior parte da vida sem receber abraços. Não é ela que te vai trazer a paz interior que tanto procuras. Não é com ela que vais debater o último artigo de opinião no New York Times. Não é ela que vai ter um carinho especial pelos teus hobbies e paixões, mesmo que no fundo até os ache meio parvos.

(Aqui, o ela também pode ler-se como sendo um “ele”, ou até um “they”, que eu não excluo poliamorosos e pessoas que não se identifiquem com nenhum dos dois géneros “tradicionais”.)

O que fazer, então, quando o nosso cérebro resolve pregar-nos uma partida dessas? To love, or not to love? This should be the question, caro Hamlet.

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