Escondido nas profundezas da mente, todos têm um Lobo. Esse predador está à espreita. Alimenta-se dos nossos medos, dos nossos fracassos, num processo de autofagia que tem a destruição do hospedeiro como etapa final. Destruição mental, física ou ambas, em casos extremos, quando o crescimento da criatura é tão significativo devido à enorme disponibilidade de sentimentos negativos, que não há mais espaço para sorrisos e o hospedeiro vê-se perante duas alternativas: o fim ou a muralha.
A complexidade de cada ser humano torna qualquer análise dicotómica do comportamento humano algo simplista e, pode-se dizer, ignorante. O livre arbítrio é ficção. As decisões que tomamos, supostamente de forma consciente, foram há muito condicionadas pelos genes que herdamos, as interações com o ambiente que nos rodeia, (sobretudo as pessoas), os traumas vividos. A forma como vamos reagir para o resto da vida a diferentes situações está, muitas vezes, limitada a poucas opções diferentes desde tenra idade, quando a nossa personalidade fica definida. Fugir desse determinismo exige uma força hercúlea, só possível aos corações mais puros que estejam a ser alimentados frequentemente de amor. Entender o comportamento de cada indivíduo exige um elevado nível de compromisso emocional e um desligar das nossas próprias manias e vontades.
1+1 = 3.
2 x 2 = 6.
3 + 3 = 9.
As contas acima parecem estar erradas, mas não estão. As contas dos sentimentos humanos, da transmissão de afetos, não seguem lógica nenhuma. Não há espaço para a física ou a matemática. Não há comportamentos expectáveis. A presença do Lobo e da Muralha alteram a configuração habitual do universo, e por universo refiro-me ao complexo mundo individual; o Lobo e a Muralha distorcem o universo invididual de tal forma que os 5 sentidos perdem significado e são substituídos pelo desespero, a loucura, a tristeza, a raiva e pelo fim.
A Muralha é conhecida por diversos nomes, mas será talvez mais importante falar sobre a sua construção. A Muralha começa a ser edificada para proteger a nossa mente do Lobo, ou pelo menos é essa a história que contamos a nós próprios. Ela bloqueia o acesso do Lobo aos nossos sentimentos mais íntimos, bons ou maus. Cresce tijolo a tijolo enquanto o lobo enfraquece e temos uma sensação de maior conforto. No entanto, para provar que a maioria das histórias não tem um final feliz, a Muralha tem dois grandes inconvenientes:
1 – Ao barrar o acesso ao lobo, as grandes muralhas barram também o acesso a todos em redor.
2 – Quando derrubadas, geralmente por decisão do hospedeiro devido a um forte estímulo externo, o indivíduo encontra-se tão vulnerável que ao mínimo abalo o Lobo é capaz de ter um crescimento exponencial. Esse sofrimento tão forte de quem estava habituado a se proteger tem consequências notoriamente nefastas. Associado a outros fatores de risco, a auto-destruição do hospedeiro é geralmente a única solução.