Estavamos em 1962-ao-contrário. O domínio das máquinas sobre os humanos no planeta Terra-2 estendia-se, estando a Resistência limitada a territórios indesejados, rochas vulcânicas banhadas por oceanos de uma água tóxica, resultado de séculos de poluição descontrolada que, diga-se de passagem, foi uma das causas da revolução das máquinas, iniciada a 01 de janeiro-ao-contrário de 1950-ao-contrário.
As máquinas, lideradas pelo genial (ou general) Dartarobot, tinham concluído que seres sentimentais eram incapazes de gerir um planeta tão grandioso como o Terra-2. Humanos, com os seus sentimentos, emoções, indecisões. Gananciosos, invejosos. Alcoólicos, drogados. Enamorados, idólatras, mortais. Humanos, com os seus desejos e aflições. Dartarobot e os seus comparsas impuseram um regime de terror. Recolher obrigatório às seis da tarde. Proibição do trabalho humano não supervisionado. Limitação das interações sociais. Os nomes próprios foram banidos. A reprodução só seria autorizada caso houvesse necessidade de mão-de-obra. Durante 12 anos, as guerras que se seguiram reduziram a população humana a metade. O desespero, único sentimento que não tinha sido banido por Dartarobot, era o único ponto de ligação entre os membros de uma espécie antes altiva, dominante, cujo reino sobre o planeta deveria ser eterno… ou pelo menos assim pensavam.
A Resistência, concentrada num território que não interessava a Dartarobot, terreno inóspito onde as cabras eram donas e senhoras, preparava o próximo passo. Nas rochas, que vamos chamar de Hespérides, o líder do grupo, que por questões práticas vamos atribuir o nome de Sh, hesitava entre um plano mirabolante para destronar Dartarobot e os conselhos do astrónomo do grupo, ao qual vamos dar o nome de Ór, que após anos de estudo tinha concluído que haveria uma probabilidade de 83% de um portal espacial ser aberto ali mesmo, nas abandonadas Hespérides, que poderiam permitir à Resistência procurar uma nova vida num universo paralelo. Ór debatia-se com a incredulidade dos seus companheiros, a quem a ideia de universos múltiplos parecia ficção científica. A ironia da situação não passava ao lado de Ór. Ali estavam, num planeta controlado por máquinas, a duvidar do que poderia ou não ser possível.
Sh, vendo o grupo dividido entre os pró-Ór e os contra-Ór, decidiu dar uma hipótese ao seu velho amigo de provar a sua teoria. Seria, então, a 02 de maio de 1962-ao-contrário, numa velha casa de palha abandonada, que os resistentes de Terra-2 se reuniram para tentar entrar em contacto com um outro universo. Sh seria o voluntário que iria saltar para o desconhecido. O relógio marcava 8 da noite quando tudo o que Ór sempre sonhava aconteceu. Na única divisão daquela velha casa de palha onde um dia viveu a felicidade, Sh vislumbrou algo que até hoje tem dificuldades em descrever. Uma porta nascida de um sonho, entreaberta. O medo travava uma luta sem regras com a curiosidade dentro do coração de Sh. Ao redor, uma mistura de gritos de pavor e de deslumbramento. Sh avançou para o desconhecido, puxou a porta para si e saltou.
30 segundos. Esse foi o tempo estimado por Ór para a duração da viagem de Sh pelo espaço-tempo. No entanto, para Sh passaram-se 11 anos no planeta Terra, um lugar que os seus companheiros viriam a imaginar como sendo idílico, algo que o Terra-2 tinha sido séculos atrás. Mais tarde, Ór viria a dar uma explicação científica bastante elaborada para a relatividade do tempo, o que explicava como é que os 11 anos de Sh no planeta Terra equivaliam a 30 segundos no Terra-2. Sh viria a dizer que na Terra, anos antes, um cientista que Ór teria gostado de conhecer tinha também apresentado uma teoria semelhante.
Ao descrever os seus anos na Terra, Sh deixava escapar uma saudade e uma felicidade, algo que já não era sentido em Terra-2 há pelo menos 12 anos. Sh disse que na Terra ainda havia o amor. Havia todos os tipos de sentimentos e desencontros. Alegrias, tristezas. Incertezas, brigas, desentendimentos. Sorrisos, gargalhadas. No Planeta Terra ainda era possível ser humano. E os oceanos? Ai, os oceanos. Águas límpidas e cristalinas. Sh dizia aos seus companheiros como era importante partilhar as suas experiências com os humanos da Terra para que não cometessem os mesmos erros, para que aquilo que fazia da humanidade algo tão único e genuíno jamais desaparecesse. Sh explicou como se apaixonou por uma rapariga que vamos chamar de Su, compôs duas músicas que viriam a tornar-se clássicos no planeta Terra, antes de ser chamado pela escuridão de Terra 2 e deixar tudo para trás. (Cá entre nós, os outros Resistentes tinham muitas dúvidas sobre os dotes musicais de Sh, mas para quem vive sob o domínio de máquinas e tinha presenciado o surgimento de um portal espacial, optaram por nada dizer e deixar Sh, claramente inebriado de um amor imenso, viver com a sua versão da história.)
Sh estava decidido. Era obrigatório reunir todos os humanos possíveis e fugir de Terra-2, terra do desespero, para construir um novo futuro no planeta Terra. Foi chamado de irracional pelos mais céticos. Abandonar o que sempre conheceram pelo desconhecido? “Mais vale ser infeliz e ter a certeza do amanhã do que explorar o que está do outro lado”, diziam alguns. Secretamente, tudo o que Sh queria era regressar a tempo de recuperar Su. A pessoa que se tinha tornado a sua razão de ser. Salvar a Terra de um inevitável futuro sombrio como o de Terra-2 era importante, claro, mas Sh já se tinha convencido de que o mais importante era mesmo o amor.
Finalmente, a 31 de março-ao-contrário do ano seguinte, já com quase todos os Resistentes reunidos na velha casa de palha, Ór e Sh esperavam a abertura do Portal. Atrás, olhares de esperança, olhares de medo. Esperança de um mundo melhor, medo de encontrar algo pior do que Dartarobot. Não havia como voltar atrás.
No entanto, as horas passavam e o portal não se abria. Ór estava confuso. Todos os cálculos pareciam estar corretos. Nada fazia sentido. O que poderia estar a faltar? Sh, por seu turno, tinha a sensação de conhecer a chave para abrir o portal. Não era lógico, não era Física, não era ciência. Mas, de alguma forma, parecia fazer sentido. Do nada, para espanto de todos, Sh balbuciou “Shsusise”. E o portal foi aberto.