Janela Indiscreta

(Ela perguntou-me se era para sempre. O sempre, retorqui, é do tamanho do universo. Sou demasiado pequeno  para me atrever a mexer com ele.)

Buracos. Negros ou não. Escotilha. Alçapão. Eu, o voyer. A boca. Os lábios. Curiosidade. Secretismo. O perfecionismo consumido pelas imperfeições que ligam um lugar ao outro, que nos ligam a todos, conscientes ou não.

Era um quarto para a meia noite. O dia que jamais irá voltar procurava com impaciência aquele que é o fito de todos os dias que já foram e dos que estão para vir: cravar uma faca na alma de uma quota indeterminada de seres para que não sejam exilados para o purgatório dos dias, um lugar escondido no quadrante sul do Universo, onde todos os não-seres existentes são esquecidos, abandonados, pelo simples pecado de não terem conseguido ser lembrados.

A dita quota, caro leitor, nem eu sei qual é, pois os dias não são uma raça muito palradora. O que sei, perdoem-me a indiscrição, é que faltam 15 minutos e a esperança deste dia limita-se a uma janela. Ou um buraco. Negro ou não. Não sei. É muito tarde para exigir uma descrição fidedigna.

Sentado no escuro, o silêncio só é teimosamente desafiado por uma torneira mal fechada. 14 minutos. Está há 7 horas sentado na mesma posição. Olhar vazio, de uma tristeza dilacerante. Nem faz ideia do que está para acontecer. Completavam-se 77 dias que fazia o mesmo ritual. A mesma vestimenta. A mesma cadeira. Olha em frente. O breu quase total. O local escolhido por aqueles olhos moribundos era o único do qual brotava luz, a ligação com o único outro universo que lhe interessava. O pequeno feixe de luz mantia-o vivo. Universos, cada um tem o seu. Mas ele só queria o dela.

5 minutos. Aposta arriscada, a deste dia. Tentar evitar ser exilado mediante uma aposta num ser sem esperança, agarrado à vida por memórias nunca vividas, inventadas num instinto extremo de sobrevivência só partilhado pelos que nunca puderam ser felizes. O cume da evolução.

1 minuto. A fonte de luz, sem avisar, aumenta de tamanho. Há espaço para sons. Os olhos moribundos rejuvenescem. Do outro lado, vindo do universo que ele sempre quis, uma pergunta: pode ser para sempre?

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