O Idealista. Pequeno Conto. 1.ª parte (texto publicado originalmente em 2009)

Ter ideais a partir de certa idade é visto como sinal de imaturidade, de ausência total de contacto carnal com a crua realidade. Afinal, o que interessa é ter dinheiro, muito dinheiro, guardando quaisquer comiserações para aqueles minutos dos telejornais onde são exibidas imagens daqueles “pretinhos” pobrezinhos do longínquo país chamado África. Ter ideais é idiota e próprio da irreverência juvenil. Pff, coitados, acreditam num mundo melhor, no fim da fome, na justiça social, na paz e no amor… pff, quando crescerem é que é!
Começo a pensar que o comum mortal receia o idealista. Não consegue lidar com a dura realidade de que há quem acredite. Temem o revolucionário, o pequeno Che, o comunista papão. No fundo, amargas pessoas são por já não serem capazes, por já terem perdido a capacidade de vislumbrar encanto e beleza, algo só conseguido pelos mortais com olhos de acreditar.
Copo meio cheio. Copo meio vazio.
Trovejava. O relógio de cuco da sala de estar marcava 11:53 naquela insólita noite de verão, algures no Pacífico Sul. A tempestade não se encontrava sozinha lá fora. Eles, aqueles, faziam-lhe companhia na escuridão profunda rasgada pelos brancos fios de cabelo de Deus. A questão que ela se colocava era se pretendiam entrar. Todos sabem que nenhuma porta os detém, aqueles são muito poderosos, tão poderosos que as portas são concebidas para cederem ao mínimo bafo, com vista a não os enfurecer. A manhã tinha sido soalheira, ela tinha andado pela praia, pensando na tórrida noite anterior, porventura tão tórrida dentro como fora de casa. Estava cansada, as pernas bambas: tinha dormido pouco, ele queria sempre mais. Na sala de estar, com a mente dividida entre o enriquecedor passeio e o pressentimento quase visível de aqueles excitados e ansiosos por entrar, ela resolveu sentar-se ao piano.
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